Oásis urbano: um remédio natural contra a depressão, TDHA e estresse

A cada dia que passa temos mais evidências que demonstram como a desconexão com a natureza prejudica nosso estado de felicidade, debilita nosso sistema imunológico e reduz nosso poder de concentração e criatividade. Se você é um habitante urbano, como a maioria das pessoas, na maioria das semanas, pode ser que você tenha dificuldade em ver a luz do dia. Talvez você faça um um pingue-pongue entre a sua casa, seu carro, seu trabalho, a escola dos seus filhos, padaria, supermercado, banco… Como muitos da nossa geração, pode ser que você esteja passando boa parte da sua vida adulta em uma corrida apressada para perceber que essa existência sem sol, interior e faminta de sujeira pode realmente estar cobrando seu preço.

Nos EUA, 1 em cada 10 pessoas toma antidepressivos, enquanto que no Brasil, estima-se que 5,8% da população sofra de depressão (durante 2014 e 2018 verificou-se um crescimento de 23% no uso destes medicamentos). E esse quadro fica ainda mais sombrio quando colocamos o foco no grupo de mulheres entre 40 e 50 anos, onde nos EUA 1 em cada 4 mulheres vem sendo medicada com antidepressivos. Isso sem contar nas vidas que são perdidas em mortes acidentais, decorrentes dos riscos envolvidos com o uso de tais medicamentos.

Ao mesmo tempo temos recebido com felicidade muitos depoimentos de pessoas que tem usado a jardinagem e horticultura como terapia e apoio em quadros depressivos, como nestes depoimentos que colhemos em uma das postagens em nossas redes sociais:

Como se trata de um assunto de grande relevância, resolvemos pesquisar e trazer aqui um resumo dos mecanismos que atuam nestes e outros pontos que talvez sejam importantes para que você também entenda como funcionam os benefícios de criar o seu próprio oásis relaxante, refrescante e natural – mesmo que dentro da cidade, e como isso pode atuar na melhoria do seu quadro de saúde físico e emocional:

Pessoas se deitam na grama do Jardim das Laranjeiras (Giardino degli Aranci) no Monte Aventino, centro de Roma. (Andreas Solaro / AFP / Getty Images)

O solo pode funcionar como um antidepressivo  químico.

Um estudo da Universidade de Bristol, na Inglaterra, em 2007, mostrou que uma bactéria específica do solo chamada Mycobacterium vaccae, quando injetada em camundongos, tem como alvo as células imunológicas que estimulam os neurônios liberadores de serotonina no cérebro – os mesmos neurônios ativados pelo Prozac. Quanto essas bactérias entram em contato com as células do nosso sistema imunológico, elas liberam substancias que bloqueiam os eventuais processos inflamatórios, como demonstra esse estudo da Universidade do Colorado, de 2019.

Realizar atividades junto a natureza aumenta a capacidade de concentração

Os professores Stephen e Rachel Kaplan (Universidade de Michigan), passaram décadas investigando por que os humanos se concentram melhor depois de passar um tempo na natureza. Eles descobriram que o mundo natural, com suas muitas camadas de sons, cheiros e texturas, estimula nossa atenção involuntária, o que significa que entramos em um estado em que nossa consciência se envolve sem esforço em nosso ambiente.

Esse estado repousa e restaura nossa capacidade de exercer atenção voluntária, o que nos ajuda a ser decisivos e focados. Isso ajuda a explicar por que líderes como Steve Jobs e Teddy Roosevelt passaram horas por dia caminhando ao ar livre para ajudar em seus processos criativos e de tomada de decisão. Isso também pode explicar por que, em um estudo da Universidade de Illinois com 400 alunos com Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH), os participantes melhoraram significativamente sua capacidade de se concentrar depois de passar algum tempo ao ar livre.

Contato com a terra fortalece o sistema imunológico

Outro estudo notável é descrito no artigo da revista Outside, “Take Two Hours of Pine Forest and Call Me in the Morning”. A autora Florence Williams relatou o trabalho de Qing Li, da Nippon Medical School, em Tóquio, que descobriu que passar tempo ao ar livre pode recarregar nosso sistema imunológico. Li trouxe um grupo de profissionais da cidade para a floresta para uma caminhada de três dias, após os quais seus exames de sangue mostraram um salto de 40% em suas células imunológicas “matadoras naturais” (que atacam tumores e células infectadas por vírus). Quando esses mesmos sujeitos caminharam pela cidade, seus níveis de NK não mudaram. Florence também relatou evidências de que caminhar por florestas, em vez de paisagens urbanas, pode reduzir significativamente o cortisol, o hormônio do estresse, ao mesmo tempo que diminui a pressão arterial, a frequência cardíaca e a atividade nervosa simpática.

Todas essas descobertas pró-natureza também podem te motivar a fazer algumas mudanças. Se você não pode dar uma caminhada na floresta, ou se não tem um belo parque como este da foto perto da sua casa, pelo menos saiba que aquela laje ou aquele quintal todo cimentado que estão dando bobeira ali – se transformados em horta ou jardim, podem te trazer resultados surpreendentes.

Confesso que para mim, cuidar da horta e do jardim é uma válvula de escape, especialmente quando estou me sentindo muito ansioso, triste. Eu cavo minhas mãos no solo e faço o trabalho silencioso e constante de jardinagem, esperando meu humor melhorar. Surpreendentemente, funciona.

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Artigo original: “The Importance of Getting Dirt” de Amanda Little, para o site Goop.com

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