Pra não dizer que eu não falei das florestas

Hoje vou deixar os telhados verdes de lado um pouco para falar sobre um dos temas que mais me fascinam – a história desconhecida da Amazônia. Talvez poucos de vocês saibam, mas a maior floresta tropical do planeta já foi um grande centro econômico antes da chegada dos europeus por aqui – o mito da floresta virgem nunca existiu, na verdade, boa parte da floresta foi cultivada e manejada pelos primeiros horticultores urbanistas da América.

Capa de 2002 do periódico The Atlantic – em inglês, mas vale a pena ler em detalhes os meandros desta história que continua sendo escrita a ferro e fogo.

E é justamente isso que quero compartilhar com vocês hoje. Antes de mergulhar nos jardins suspensos, me aventurei pelo mundo das plantas medicinais e etnobotânica – história que contei rapidamente neste artigo de 2016.  Através desta disciplina e sob a orientação de pesquisadores como o prof. Lin Chau Ming (Unesp de Botucatu) e prof. Charles Clement (INPA – Manaus) dentre outros mentores, aprendi a desconstruir vários mitos sobre nosso história e colonização. E não são poucos mitos a serem desconstruídos. A Amazônia é um deles. Neste momento em que a floresta parece estar mais ameaçada do que nunca, depois de anos de negociações e acordos para delimitação de reservas e áreas de proteção e manejo, este artigo que recebi nesta semana do prof. Charles Clement ajuda a demonstrar – com base em pesquisas sobre o passado e avanços do presente, que é possível compatibilizar desenvolvimento social e proteção ambiental com a floresta em pé.

No momento da chegada dos espanhóis na Amazônia – sim, não foram os portugueses os primeiros europeus a navegarem por seus rios, estima-se que existiam em 1 milhão a 15 milhões de pessoas vivendo ali. Apesar das discrepâncias e discussões, um dos números mais aceitos gira em torno de 5,7 milhões de pessoas, concentradas em verdadeiras metrópoles pré-colombianas nas margens dos grandes rios: “grandes aldeias ao longo dos barrancos dos rios Solimões e Amazonas, às vezes próximas umas das outras, às vezes separadas por longas distâncias“.

Essas populações possuíam agricultura (na verdade horticultura e silvicultura) muito desenvolvida, com diversas espécies vegetais em domesticação. Desde os geoglífos encontrados no Acre aos grandes aglomerados de palmeiras comestíveis (como patauá e pupunha) e árvores de grande valor como a castanha do pará, parece ter havido uma grande inteligência que mesclava engenharia e horticultura em escala para produção de sociedades tão avançadas quanto os Incas ou Maias no coração da Amazônia.

Com a conquista européia e o massacre das populações nativas, as florestas foram abandonadas e os vestígios destas civilizações foram apagados, remanescendo apenas na história oral e mitologia das populações nativas que conseguiram sobreviver fugidas na mata, tendo que adotar um padrão nômade para sobreviver. Vejam abaixo um trecho do texto de Charles Clement produzido pelo Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos – Ética & Ciência, papel social do cientísta:

Em fevereiro de 1500 d.C., o espanhol Vicente Yáñez Pinzón e sua expedição foram os primeiros europeus a pisar na Amazônia, tomando posse em nome do rei de Espanha. Eles ficaram impressionados com a água doce adentrando no Oceano Atlântico e batizaram o rio de Santa Maria de La Mar Dulce. Também iniciaram a tradição europeia de conflito com os povos nativos e imediatamente capturaram 36 para levar de volta a Espanha. Logo em seguida, o também espanhol Diego de Lepe e sua expedição chegaram à foz de La Mar Dulce e foram imediatamente atacados pelos povos nativos, que já haviam brigado com Pinzón e sua expedição. Lepe mandou abrir fogo contra seus atacantes e o resultado foi o primeiro massacre indígena (Souza, 2009). A foz do rio de Santa Maria de La Mar Dulce estava ao oeste do me- ridiano de Tordesilhas, o que legitimou as pretensões espanholas. No entanto, o rei espanhol não investiu neste novo achado, possivelmente porque Pinzón não conseguiu levar ouro de volta para Espanha e Lepe somente levou notícias, e nenhum espanhol voltou à foz do rio até a expedição de Francisco de Orellana, que chegou a ela, descendo o rio desde os Andes. Em abril de 1500, Pedro Alvares Cabral e sua expedição descobriram o atual nordeste brasileiro, ao leste do meridiano de Tordesilhas, abrindo caminho para o estabelecimento da primeira colônia de Portugal na América do Sul, mais tarde chamado de Brasil. 

Em 1541, a expedição liderada por Francisco de Orellana desceu o rio Napo à procura de canela, uma das obsessões europeias na época, e da lendária cidade de El Dourado, baseada numa lenda indígena. Ao longo do ano seguinte, a expedição de Orellana roubou comida, capturou e liberou informantes, batalhou com muitas comunidades indígenas, incluindo as famosas mulheres guerreiras chamadas das Amazonas, o que deu o nome atual do rio, até sair da Amazônia ao longo do litoral de Amapá, embora Orellana tenha morrido no estuário. O cronista dessa expedição foi o padre Gaspar de Carvajal, o primeiro a fazer um relato dos recursos naturais da região; no entanto, sem rela- tar ouro, nem canela. Foi Carvajal que relatou a existência de populações numerosas, sadias e bem alimentadas, com aldeias grandes, próximas umas às outras, cercadas por pomares e abastecidas de alimentos. Este relato estimulou a imaginação europeia, mas não os investimentos espanhóis em colonizar a região.

Vinte anos depois de Orellana, a expedição de Pedro de Ursua foi a mais sanguinária do primeiro século da conquista, principalmente porque Lope de Aguirre assumiu a liderança, após assassinar Ursua e Fernando de Guzman. Enquanto a expedição de Orellana batalhou quando era necessário, a de Aguirre foi repleta de assassinatos de espanhóis e de povos nativos ao longo de sua descida rápida do grande rio, em pouco mais de três meses. Tanto a expedição de Orellana, como e especialmente a de Aguirre, foram prenúncios do holocausto que estava prestes a ocorreu na Amazônia (Hemming, 1995). Antes de Portugal começar sua conquista da Amazônia, outros países europeus, incluindo Inglaterra, França, Irlanda e Holanda, mandaram aventureiros e expedições, inclusive para iniciar a colonização da Amazônia. Estes países nunca respeitaram o Tratado de Tordesilhas, pois o tratado somente incluiu Portugal e Espanha, e se sentiram livres para tentar encontrar seus próprios El Dourados ou estabelecer fortificações e colônias, especialmente França e Holanda. Neste período, a coroa portuguesa estava expandindo seus investimentos nas suas colônias ao longo do litoral, desde o atual Ceará até o Sul do atual Brasil. Uma das investidas mais importantes de outros europeus foi a conquista pelos franceses de São Luiz de Maranhão, um pequeno forte português no extremo norte da colônia quase no meridiano de Tordesilhas. Em 1615, o governador-geral do Brasil mandou uma expedição para expulsar os franceses de Maranhão e a expedição continuou para expulsar os outros estrangeiros da região do estuário do rio Amazonas, violando assim o Tratado de Tordesilhas, que considerava o estuário território espanhol. Esta é a primeira expansão portuguesa em direção à Amazônia. Em 1616, a expedição fundou o que tornaria ser a cidade de Santa Maria de Belém e decidiram chamar a região dominada por ela de Feliz Lusitânia. Este evento é, ao mesmo tempo, o início da conquista portuguesa da Amazônia e o início da colônia nova, que teve diversos nomes ao longo de sua história conturbada. Como a conquista e colonização espanhola, a conquista e colonização portuguesa foi um desastre para os povos nativos da Amazônia.

Diferente dos espanhóis que buscavam ouro e especiarias, os portugueses queriam produzir alimentos e produtos para exportação, tanto em forma bruta como processada, pois na Europa estava iniciando – ainda timidamente – a Revolução Industrial. Para produzir alimentos e outros produtos, os portugueses precisavam de mão-de-obra. Já que o número de portugueses era muito peque- no, procuravam mão-de-obra entre os povos nativos e logo descobriram que nenhum queria se submeter ao trabalho forçado ao estilo português. Para conseguir mão-de-obra, o governo da nova colônia começou a fomentar guerras entre os muitos e diferentes grupos indígenas, sempre oferecendo comprar escravos dos vencedores (Hemming 1995; Souza 2009; Mann, 2011). Parece razoável considerar que a fundação de Belém é o início do holocausto na Amazônia.

Diferente do holocausto europeu do século XX, o holocausto amazônico dos séculos XVII e XVIII não foi planejado como tal; começou com a procura de escravos por parte dos colonos portugueses, que receberam o apoio dos governos de Portugal e da colônia em expansão, quando esta se defendeu de ataques dos povos nativos que não desejavam ter europeus por perto, bem como quando fomentou guerras entre os grupos indígenas, tanto para ajudar a se de- fender como para aumentar a oferta de escravos. O holocausto expandiu com a disseminação de doenças europeias, favorecidas pelas condições subumanas em que os novos escravos foram mantidos. Estas doenças mataram mais pessoas do que as guerras e tratamento sub-humana dos escravos, pois os povos nativos não possuíam nenhuma resistência natural a essas doenças. O processo foi completado quando os Jesuítas, a principal ordem católica na Amazônia, tentou ajudar os povos nativos contra os colonos, já que eles estavam horrorizados pelos maus tratos a que os escravos indígenas estavam submetidos. Os Jesuítas estabeleceram missões, com apoio da coroa portuguesa, onde atraíram os povos nativos para serem protegidos e catequizados, e onde foram presas fáceis para as expedições escravagistas montadas pelos colonos. Com a combinação de doenças, escravização, guerras fomentadas e missões, estima-se que a dizimação populacional chegou a algo entre 90 e 95 % da população indígena, até o início do século XIX (Denevan 1992a, 2014). Sem seus habitantes, as paisagens e florestas domesticadas da Amazônia foram abandonadas à sua própria sorte e a agência da natureza, sempre muito presente, começou a transformar essas paisagens e florestas em algo mais natural e menos antrópico. Foram essas novas paisagens “naturais” que os primeiros naturalistas europeus descreveram a partir do fim do século XVIII, quando Alexandre Rodrigues Ferreira realizou sua famosa viagem filosófica.

Quer saber um pouco mais sobre essa história incrível e suas implicações para entender e mudar o cenário de subdesenvolvimento na Amazônia? Fácil, basta fazer o download do documento que disponibilizamos na íntegra para você aqui. Boa leitura!

“Sem utopia, a Ciência perde sua função, a Ética atrofia e a própria vida humana perde sentido. Sonhar é preciso, como dizia o poeta!”

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