Onde quer que a chuva caia…

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A primeira vez que ouvi falar sobre Friedensreich Hundertwasser foi em 2008 – a gente tinha acabado de se mudar de Belo Horizonte para São Paulo e estávamos morando em uma casinha de vila no coração do bairro de Pinheiros. Um dos nossos vizinhos (o Tomaz) era um confeiteiro fantástico e sempre batia em nossa porta pela manhã para oferecer cookies e bolinhos de chocolate, que nossa filha (e nós, obviamente) adorávamos. Recém chegados, havia a curiosidade sobre quem era aquele casal que trouxe na mudança – além dos móveis, um arsenal de vasos que iam de samambaias, jabuticabeiras a cacaueiros. Quando contamos que a gente estava começando uma empresa de telhados verdes, o Tomaz deu um pulo e na hora falou – vocês conhecem o trabalho do Hundertwasser? Não fazia idéia do que ele estava falando. Na hora ele nos arrastou até a sua casa e começou a mostrar aqueles livros enormes – coffee table books – com a obra do artista austríaco que, dentre outras coisas, lançou o manifesto do ‘homem-humus’ e foi um dos grandes defensores no uso de telhados verdes como ferramenta de transformação urbana: “nas cidades, a vegetação deveria ser cultivada sobre cada espaço horizontal disponível, nas rodovias e telhados, onde quer que a chuva caia”.

Em 2012 tivemos o privilégio de sermos convidados para visitar os detalhes do interior desta obra, que se mostra ainda mais surpreendente ao vivo. Dentro do edíficio, no pátio central, há um enorme espaço de convivência arborizado e até com um pequeno lago – mas atenção, este não é um jardim convencional: é um telhado verde INTENSIVO, projetado e executado para simular um jardim convencional de solo. Obviamente foi dada especial atenção à drenagem e impermeabilização, além do cálculo estrutural.

Vendo este jardim no centro do pátio, você imaginaria que este é um telhado verde intensivo?

Hundertwasser nasceu em Viena no dia 15 de dezembro de 1928. O artista, que começou sua carreira como pintor, se aventurou na arquitetura já nos anos 50. Ele acreditava na existência de uma estreita relação entre o projeto arquitetônico e o bem-estar dos que vivem dentro de um edifício.

De acordo com Friedensreich Hundertwasser, a arquitetura é a “terceira pele” do ser humano, e ele acreditava que todo ser humano deveria ser capaz de escolhe-la e configurá-la, da mesma forma que pode moldar sua primeira pele (pele natural) e sua segunda pele (roupas). Através de seus projetos arquitetônicos e dos conceitos de “window rights” (algo como o direito a janela)  e “obrigação de árvore”, ele trabalhou para criar espaços de vida individuais em harmonia com a natureza. Ele considerou a tarefa de levar os seres humanos de volta ao paraíso perdido central à responsabilidade de um arquiteto.

A ideia do projeto de arquitectura de Hundertwasser na cidade de Magdeburg (Alemanha) resulta de uma iniciativa da cooperativa de habitação “City of Magdeburg in 1954”. A cooperativa se aproximou de Hundertwasser para reformar um arranha-céu de concreto pré-fabricado em 1998. O projeto de renovação foi abandonado em favor de uma nova construção. Em 2002, a GERO-AG embarcou na realização deste projeto. Com uma cerimônia de inauguração em dezembro de 2003, o sonho de Hundertwasser tornou-se realidade três anos após sua morte. Hundertwasser ainda trabalhava nos planos da Cidadela Verde de Magdeburg até pouco antes de sua morte, em 19 de fevereiro de 2000. Como todos os planos estavam completos, os modelos em escala e inúmeros desenhos disponíveis, esse projeto arquitetônico poderia prosseguir, mesmo sem o artista . Por isso, a Cidadela Verde de Magdeburg é o último edifício projetado e realizado pelo artista austríaco.

 

Fabiana e Sérgio em 2012 durante visita técnica ao Green Citadel – última obra de Hundertwasser.

Na Cidadela Verde, todas as causas arquitetônicas de Hundertwasser se reúnem sob o mesmo teto. Assim, em seu “melhor e mais belo trabalho”, os globos de ouro que adornam as torres brilham por quilômetros ao redor, os “inquilinos das árvores” olham para fora das “janelas dançantes”, o ar é preenchido com o aroma de flores silvestres que emana dos telhados verdes. Os pisos ondulados são “melodias para os pés” e guiam os visitantes pelos pátios. Dentro do edifício, os indivíduos em busca da sua terceira pele podem encontrar o que procuram entre os 55 apartamentos individualmente projetados. Fachadas de lojas atraentes, salas de eventos, um hotel, um teatro, escritórios, consultórios médicos e um jardim de infância estão todos sob um telhado muito especial.

A obra-prima de Hundertwasser torna o paraíso acessível a qualquer um – um paraíso no qual se pode não apenas viver, trabalhar, fazer compras, admirar e apreciar, mas também celebrar, realizar reuniões e passar a noite. Você pode descobrir mais sobre esse trabalho e o artista por trás dele em visitas guiadas e no manifesto do edifício.

Algumas janelas revelam as ‘árvores-moradoras’ que Hundertwasser planejou para compartilhar o espaço interno com os moradores.
Num telhado verde intensivo o objetivo é simular completamente a situação e ambiente de um jardim convencional de solo, com o diferencial de detalhes específicos como drenagem e impermeabilização que precisam de atenção especial.

1 comentário Adicione o seu

  1. Camila disse:

    Maravilhoso!! Gostei muito Sérgio de conhecer um pouquinho sobre Hundertwasser.

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